quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A privada




É um lugar onde nos sentimos bem
Tendo acima as estrelas, abaixo os excrementos
Um lugar simplesmente maravilhoso onde
Mesmo na noite de casamento é possível estar só.
Um lugar de humildade onde você descobre com clareza
Que não passa de um homem que nada pode conservar.
Um lugar de sabedoria onde você pode preparar
A barriga para prazeres novos.


Bertolt Brecht

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Poema "Aos Que Vão Nascer" de Bertolt Brecht

1.
Realmente, eu vivo num tempo sombrio.
A inocente palavra é um despropósito. Uma fronte sem ruga
denota insensibilidade. Quem está rindo
é só porque não recebeu ainda
a notícia terrível.

Que tempo é este em que
uma conversa sobre árvores chega a ser falta,
pois implica em silenciar sobre tantos crimes?
Esse que vai cruzando a rua, calmamente,
então já não está ao alcance dos amigos
necessitados?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Porém, acreditai-me: é puro acaso. Nada
do que faço me dá direito a isso, de comer a fartar-me.
Por acaso me poupam. (Se minha sorte acaba,
estou perdido.)

Dizem-me: — Vai comendo e vai bebendo! Alegra-te

com o que tens!
Mas como hei de comer e beber, se
O que eu como é tirado a quem tem fome, e
meu copo água falta a quem tem sede?
contudo eu como e bebo.

Eu gostaria bem de ser um sábio.
Nos velhos livros consta o que é sabedoria:
manter-se longe das lidas do mundo e o tempo breve
deixar correr sem medo.
Também saber passar sem violência,
pagar o mal com o bem,
os próprios desejos não realizar e sim esquecer,
conta-se como sabedoria.
Não posso nada disso:
realmente, eu vivo num tempo sombrio!

2.
As cidades cheguei em tempo de desordem,
com a fome imperando.
Junto aos homens cheguei em tempo

de tumulto
e me rebelei com eles.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minha comida mastiguei entre refregas.
Para dormir deitei-me entre assassinos.
O amor eu exercia sem cuidado
e olhava sem paciência a natureza.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

As ruas do meu tempo iam dar no atoleiro.
A fala denunciava-me ao carrasco.
Bem pouco podia eu, mas os mandões
sem mim sentiam-se mais garantidos, eu esperava.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minguadas eram as forças. E a meta
ficava a grande distância;
claramente visível, conquanto para mim
difícil de alcançar.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.


3.
Vós, que vireis na crista da maré
em que nos afogamos,
pensai,
quando falardes em nossas fraquezas,
também no tempo sombrio
a que escapastes.

Vínhamos nós então mudando de país mais do que de sapatos,
em meio às lutas de classes, desesperados,
enquanto apenas injustiça havia e revolta nenhuma.

E entretanto sabíamos:
também o ódio à baixeza
endurece as feições,
também a raiva contra a injustiça
torna mais rouca a voz. Ah, e nós,
que pretendíamos preparar o terreno para a amizade,
nem bons amigos nós mesmos pudemos ser.
Mas vós, quando chegar a ocasião
de ser o homem um parceiro para o homem,
pensai em nós
com simpatia.



domingo, 23 de março de 2008

Achei em um perfil do Orkut

Precauções e advertências: "...CONVÉM NÃO PROVOCAR OS PUROS..." [Nelson Rodrigues]

Informação ao usuário do orkut: “SOU UM SER CAÓTICO POR NATUREZA, MUITAS VEZES SOU A PRÓPRIA AMBIGÜIDADE DA DOCILIDADE CAÚSTICA, PORÉM FEITA SOB MEDIDA PARA AS ALMAS ANÁRQUICAS E TRANSGRESSORAS. O RESUMO DA ÓPERA, SOU UMA PERDIDA... AFINAL QUEM É QUE PROCURA O QUE FOI ACHADO?????”

Indicações:GENTE VIRTUOSA DEMAIS ME DESAGRADA. PREFIRO OS IMPERFEITOS. GOSTO DAQUELES QUE LUTAM PRA NÃO ENLOUQUECER. PRECISO DAQUELES QUE TÊM MEDO, E AINDA QUE DE PERNAS BAMBAS, SEGUEM. SONHO COM AQUELES QUE TRAZEM A ESPERANÇA POR UM FIO. AQUELES QUE NÃO SABEM REZAR. AQUELES QUE SE PERDERAM DE SI PRÓPRIOS. APAIXONO-ME POR AQUELA GENTE QUE TRAZ UM OLHAR PERDIDO, COMO QUEM SE PREPARA PARA DAR ADEUS. NECESSITO DE GENTE CUJA BOCA TENHA BEIJADO TANTAS OUTRAS, QUE JÁ PERDEU AS CONTAS. NÃO POR UM SIMPLES CAPRICHO SEXUAL OU UMA PROMISCUIDADE SEM POESIA, MAS POR NECESSIDADE DE MAIS VIDA. PREFIRO GENTE QUE UM DIA TREPA, NO OUTRO FODE E NO TERCEIRO FAZ AMOR. GOSTO DE GENTE QUE ERRA TANTO, QUE CONSEGUE OUSAR SEM NEURA. PRECISO DE GENTE QUE AMA E ODEIA; PORQUE DE INDIFERENTES O MUNDO JÁ ESTÁ CHEIO. VIBRO COM GENTE QUE NÃO ACEITA DESRESPEITO. ANSEIO POR GENTE QUE VAI PRAS RUAS, QUE TOMA TAPA NA CARA E NÃO DÁ A OUTRA FACE. GENTE QUE NUM DIA DESISTE E NO OUTRO TEM FÉ. AMO GENTE QUE AMA SEM SE IMPORTAR COM O GÊNERO. GENTE QUE SALVA DESCONHECIDOS. GENTE QUE ENXERGA ONDE OS OLHOS JÁ NÃO PODEM VER. REALMENTE EU PRECISO DE GENTE IMPRECISA. PORQUE A IMPERFEIÇÃO É PERFEITA, DENTRO DO QUE SE PROPÕE. [Um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Madre Teresa de Calcutá. - Betty Vidigal]



Informações técnicas características: AQUELA QUE NECESSITA MERGULHAR EM OCEANOS PROFUNDOS E NÃO QUER MAIS MOLHAR OS PÉS EM POÇAS D'ÁGUA.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Das Vantagens de ser bobo






Das Vantagens de Ser Bobo
(por Clarice Lispector)

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir tocar no mundo.

O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem.
Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.

O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.
O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros.
Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida.

Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

"Eu adoro gente inteligente, mentes pensantes
que vivem se aprimorando para o bem viver.
Gente eloqüente, carismática sempre a serviço
da beleza da expressão da alma, dos sentimentos
mais profundos e da arte de expor com vivacidade,
justeza, as pinturas de seus pensamentos e emoções."

Não me importa

Não me importa o que você faz para viver.
Eu quero saber o que você deseja ardentemente, e se você ousa sonhar em fazer aquilo que o seu coração pede.
Não me interessa saber quantos anos você tem.
Eu quero saber se você vai correr o risco de parecer tolo ao ir ao encontro do amor, dos seus sonhos ou da aventura de estar vivo.
Não me interessa quantos planetas estão em quadraturas com a sua Lua.
Eu quero saber se você já tocou no centro da sua própria dor, se já foi aberto pelas traições da vida ou se murchou e se fechou de medo de sentir mais dor.
Eu quero saber se você agüenta sentir a dor, minha ou sua mesmo, sem tentar esconde-la, disfarçá-la ou resolvê-la.
Eu quero saber se você consegue sentir alegria, minha ou sua mesmo, se você dança cm paixão, permitindo se deixar arrebatar até as pontas dos pés, sem tentar ser cuidadoso, realista ou sem tentar lembrar das limitações do ser humano.
Não me interessa se a história que você está me contando é verdadeira.
Eu quero saber se você tem coragem de desapontar uma pessoa para ser verdadeiro com você mesmo, se você consegue ser acusado de traição para não trair a sua própria alma; eu quero saber se você consegue ser leal e, portanto, digno de confiança.
Eu quero saber se você consegue ver beleza mesmo quando todos os dias não forem bons, e se você consegue fazer da presença da sua própria vida o seu ponto de partida.
Eu quero saber se você consegue conviver com o fracasso, meu ou seu, e ainda ficar e pé na beira de um lago e gritar para a Lua cheia prateada: ¿Tudo Bem!¿.
Não me interessa saber onde você mora ou quanto você ganha.
Eu quero saber se você consegue se levantar depois de uma noite de aflição e desespero, exausto e ferido até a alma, e fazer o que é preciso ser feito para as crianças.
Não me interessa saber quem você é ou como veio parar aqui.
Eu quero saber se você vai ficar no meio do fogo comigo sem se acovardar.
Não me interessa onde, o quê, nem com quem você estudou.
Eu quero saber o que te sustenta por dentro quando tudo mais cair por terra.
Eu quero saber se você consegue ficar sozinho com você mesmo, e se você aprecia de verdade a sua companhia nos momentos em que a vida não faz sentido.